O exercício da prática clínica como psicoterapeuta individual e de casal, bem como, os demais papéis pessoais e sociais da minha vida têm me colocado diante de uma questão bastante contemporânea sobre a qual pretendo contribuir com algumas reflexões.

 

Segundo a psicanalista, Laura Pigozzi, “As famílias atuais, qualquer que seja sua composição, tendem todas a desenvolver um relacionamento com a prole historicamente inédito: um laço claustrofílico, no qual o que é valorizado é o nicho fechado… Uma família all inclusive… E assim o horizonte de todos se restringe…” (2018, p. 25). Essa constatação me remete a lógica inconsciente um tanto quanto narcísica que imbui os pais de um cuidado desmedido com suas crias, camuflada por uma ideia de abnegação e dedicação incríveis, reforçando a mística de pais como mártires admiráveis que abrem mão do próprio desejo para se dedicarem ao projeto de uma “família nuclear feliz”.

 

Mas, o que nos move, enquanto pais, a querermos esse lugar no pedestal? Até que ponto nos ocupamos da vida de nossos filhos para não termos que nos confrontar com nossas questões mais íntimas? Em que medida “usamos” nossos filhos como álibis para uma vida não realizada com a chancela de quase santidade? A questão não seria tão grave se paralisasse “apenas” o desenvolvimento psíquico dos pais, mas ao nos determos nesta dinâmica, percebemos que suas repercussões têm sido dramáticas também para os filhos.

 

Digo isso ciente do quão sedutora é a convocação de que ocupemos este lugar, bem como, de quão humanos somos a ponto de cairmos nesta armadilha. É preciso estarmos muito atentos e conectados com nossos desejos para não sucumbirmos nesta dinâmica.

 

Essa visão distorcida e culturalmente reforçada de que, quanto mais oferecemos, nos dedicamos e nos doamos aos nossos filhos, mais saudáveis e seguros eles crescerão, tem produzido uma geração de crianças e adolescentes emocionalmente imaturos e despreparados para os desafios da realidade fora da redoma familiar. Eles não desenvolvem a capacidade de lidar com a frustração, crescem desacreditando de si mesmos, uma vez que os adultos que deveriam tê-los encorajado para uma vida autônoma, independente, produtiva e responsável, os superprotegeram, sufocando sua capacidade de confiar nos seus próprios recursos e experimentá-los errando e acertando, caindo e levantando.

 

Assim, infelizmente nos deparamos com pais adoecidos, que vivem em função de ofertar o máximo de oportunidades aos seus rebentos, mas que esquecem de si próprios, da sua realização pessoal, deixando portanto de serem uma referência saudável para estes, o que produz um duplo adoecimento, pois essa perspectiva da parentalidade gera pais insatisfeitos que depositam nos filhos a realização dos seus desejos e estes, por sua vez, se sentem incapazes sequer para identificar e batalhar pelos seus próprios desejos, quanto mais, (o que de qualquer forma não cabe a eles), realizar o projeto de vida dos pais.

 

Do ponto de vista do desenvolvimento psíquico, é fundamental que os filhos se deparem com suas frustrações e encontrem recursos internos para crescer, e se diferenciar dos pais, mas para isso, nós, pais, precisamos urgentemente recuar do projeto: “pais/amigos”, ou, “família feliz”, ou corremos o risco de criarmos uma geração de adultos imaturos e inaptos, bem como de idosos amargurados cuidando de seus eternos bebês, que intelectualmente se desenvolveram, mas emocionalmente continuam dependentes e demandantes, ou seja, despreparados, vivendo como pseudo adultos, sob os “cuidados” de seus genitores.


Dra. Raquel Brasil Lima
Psicóloga Clínica
CRP 11/0119
Especialista em Abordagem Sistêmica da Família e em Psicopatologia Clínica.
Atende adolescentes a partir de 16 anos, adultos, casais e atletas